Com narração carregada de emoção e espaço para modalidades além do futebol, a Cazé TV transformou transmissões esportivas em fenômeno de audiência e identificação.
A janela de transferência do jornalismo esportivo esse mês foi mais comentada que as próprias contratações de jogadores. O motivo? A Rede Globo vai montando a programação da GE TV, seu novo projeto esportivo no YouTube. E, segundo a Folha (via CNN), a emissora deve transmitir na plataforma os mesmos jogos do Brasileirão que já exibe na TV aberta, além da Copa do Brasil. Um movimento que parece estratégico, mas que reforça a dependência da Globo no futebol, enquanto a Cazé TV segue abrindo o leque para modalidades que antes passavam despercebidas.
Sem dar a mínima para o adversário televisivo, o streaming comandado por Casimiro Miguel foi “roubando” audiência a cada nova transmissão. Entre as principais conquistas estão a Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2023, as Olimpíadas de Paris 2024, a Copa do Mundo de Clubes 2025 e, claro, um pedaço considerável do Campeonato Carioca todos os anos — sem falar no Brasileirão. A gota d’água para a emissora de Roberto Marinho, ao que parece, foi a confirmação de que a Cazé TV transmitirá todos os jogos da Copa do Mundo Masculina em 2026.
Sorte? Acho que não
Há quem se pergunte: será essa consolidação mera obra do acaso? Digo sem medo de errar que não. Souberam alimentar a narrativa mais adorada pelos brasileiros: a de torcer para aquilo que parece impossível de conquistar. O esporte é só um adorno dentro do contexto da Cazé TV; poderia ser com novelas, reality shows ou qualquer outra história. O importante é ter uma narrativa inspiradora. Afinal, gostamos muito de torcer — do campeonato de cuspe à distância até os pódios e troféus olímpicos. Gostamos de olhar para atletas batalhadores e nos ver representados neles. Sentimos orgulho das conquistas de ginastas, nadadores, lutadores e jogadoras como se fossem nossos irmãos, como se fossem amigos próximos. É inexplicável a maneira como o esporte move uma onda avassaladora de patriotismo no coração de cada um. Torcer pelos nossos faz bem demais.
Foi essa narrativa que o streaming abraçou com propriedade, contando com um time de jornalistas que torcem de verdade, com o coração. Com imperfeições que tornam suas transmissões mais humanas, a identificação do público importa muito mais do que a informação pura e dura. Assistir à final da Rebeca Andrade, por exemplo, teria o mesmo resultado — Globo ou Cazé —, mas o “torcer” parecia muito mais real no YouTube. E é nesse ponto que concluo: o jornalismo sério e imparcial deve, sim, continuar existindo em muitas frentes. Mas o jornalismo esportivo, este sim, é feito para apaixonados consumirem, e precisa urgentemente ser feito com mais paixão.
A gente não gosta só de futebol
E digo mais: as fontes de jornalismo esportivo precisam entender aquilo que a Cazé já entendeu — o brasileiro não gosta só de futebol. As audiências menores de outras modalidades não acontecem por falta de interesse, mas sim por falta de acesso à informação. Experimente abrir agora a página inicial de qualquer portal e procurar entre os destaques matérias sobre esportes olímpicos, radicais ou qualquer modalidade sem o apelo futebolístico. É raro encontrar. E daí começa o problema: torcer é sinônimo de amor, e a gente só ama aquilo que conhece.

Quando essas informações chegam ao grande público, ganham apelo. Depois disso, é só abraçar o resultado. Para se ter uma ideia, segundo a Veja, só nos três primeiros dias das Olimpíadas, a Cazé TV acumulou mais de 500 milhões de visualizações em seus conteúdos, e atualmente já ostenta mais de 22 milhões de inscritos no YouTube.
Patrocínios virão!

E digo mais: o país prega a valorização do esporte brasileiro. Todos querem, de alguma forma, colaborar e ter uma mãozinha na medalha alheia. Mas será o canal de Casimiro — com transmissões gratuitas e a humanização dos atletas — o responsável por destravar o aumento dos patrocínios para os esportes olímpicos. Isso porque o marketing esportivo atua em três frentes principais:
- Patrocínio do campeonato: empresas investem diretamente na competição, seja um torneio de vôlei ou de surfe, garantindo visibilidade de suas marcas em placas, quadras e arenas. É o apoio institucional que sustenta a realização do evento.
- Patrocínio para a transmissão jornalística: aqui está o diferencial da Cazé TV. Marcas passam a investir na forma como o público consome o esporte, valorizando o engajamento das transmissões. Não basta estar na arena, é preciso estar também na tela em que o torcedor vibra.
- Patrocínio para atletas: o mais humano e, muitas vezes, o mais transformador. Quando uma marca apoia diretamente um atleta, dá condições para que ele treine, viaje e compita. E, em contrapartida, passa a carregar junto a imagem de superação, esforço e conquista que o esporte proporciona.
O jornalismo esportivo precisa se reencontrar com seu passado. Já foi feito com poesia, transbordando emoção. Quem lia esportes tinha Nelson Rodrigues e suas hipérboles magníficas; quem ouvia esportes vibrava com Silvio Luiz e Luciano do Valle, que entregavam o coração a cada lance. Não dá para esperar que de repente isso suma e tudo passe a ser quadrado demais.












