Segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 Bilhões em apostas online.
José* de 21 anos, morador da capital de São Paulo, perdeu o pai recentemente devido a vícios das Bets. O jovem detalhou que o pai tinha 53 anos e faleceu em 2025, após sofrer infarto ocasionado através de um confronto entre a esposa que o questionou sobre o valor que Marcelo* havia roubado dela para apostar online.
A história de Marcelo com jogos de azar foi uma trajetória longa. De acordo com o filho, ele sempre sofreu de ludopatia (termo técnico para vícios em jogos de azar). O vendedor conheceu os jogos popularmente chamados de Bets, através de amigos que lhe passaram uma falsa promessa de que o valor investido retornaria com altos lucros.
O vício dele aumentou gradativamente com o passar do tempo, José conta que seu pai foi se distanciando aos poucos da família e quando eles perceberam era tarde demais:
“Só depois nós entendemos o quanto estava afetando, descobrimos que ele roubava da minha mãe para gastar em jogo. Pensando que ele ia duplicar o dinheiro e tudo ia dar certo, ele acabou deixando uma dívida que gira em torno de uns R$20 mil”.
Em 2025, o valor médio de R$600 dos programas de assistência é usado em apostas online. De acordo com o TCU, 7 em cada 10 pessoas que apostam são homens, e quase 30% têm entre 31 a 40 anos.
Com o aumento de 10% de beneficiários que utilizaram o Bolsa Família em “Bets”, o governo federal publicou norma para impedir a realização de apostas com valores de programas sociais. A Instrução Normativa SPA/MF nº 22/2025 prevê proibição de favorecidos ao Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) de utilizarem o valor do auxílio em jogos online de azar, de acordo com a determinação do STF, os sites devem verificar os cadastros dos jogadores através dos CPFs e bloquear o acesso.
Efeitos psicológicos e sociológicos
Segundo o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), mais de um terço das pessoas que participam de jogos de apostas (38,6%) enfrenta algum grau de risco ou transtorno relacionado ao vício. Ou seja, de 212 milhões de brasileiros, aproximadamente 80 milhões são viciados em jogos de azar.
“Em momentos de estresse, em momentos onde eu estou com ansiedade, essa preocupação e medo, é visto como uma válvula de escape. Então, a plataforma vai ser vista como um escape ou uma tentativa de alívio.”, explica a psicóloga Emily Rodrigues da Silva, que atende pacientes com casos de dependência em jogos de azar.
Os impactos familiares costumam ser profundos de acordo com a psicóloga. “Os impactos que podem ter na questão familiar é que muitas vezes, isso pode acabar no conflito, no isolamento e eu não falo só da parte do indivíduo que está apostando, mas também da família que pode entrar até em quadros de depressão e ansiedade.”, afirma Emily.
No caso de Maria*, mãe de dois filhos e viúva, é beneficiária e utilizou do Bolsa Família em apostas online. Devido a perda do marido, que veio a falecer de câncer, para aumentar a renda familiar, a solução foram os jogos de azar.
“Eu tinha apostado algumas vezes para conseguir pagar as contas de casa, foi um momento de desespero. O jogo que eu mais jogava era no o do foguetinho, aquele em que o foguete sobe e a gente precisa tirar o dinheiro antes de ele explodir. Chegou num ponto que só estava perdendo e parei de fazer isso porque sei que não vai ter nenhum retorno fixo.”
Dentre os jogos mais procurados estão 80% de apostas online em jogos de futebol, 20% no “jogo do aviãozinho” e por fim 18% no jogo “campo minado”.

Para entender o crescimento do número de pessoas que apostam, Tiago Silva, Chief Business Development da Cactus Gaming, observa que está diretamente ligado à expansão do mercado regulado e à digitalização do entretenimento. Para ele, esse movimento reflete uma transformação natural do comportamento do público diante das novas tecnologias e formas de lazer online.
“Junto a essa evolução, temos o dever de olhar para as práticas de jogo responsável”, afirma Tiago, destacando que o crescimento sustentável do iGaming, portal especializado em apostas online, depende de uma abordagem ética e consciente por parte das empresas.
Ele acrescenta que inovação e tecnologia devem andar lado a lado com a proteção do jogador, oferecendo ferramentas que garantam não apenas segurança e personalização, mas também uma experiência equilibrada e saudável para todos os públicos.
Por Larissa Araújo, Mirella Silva e Thayssa Souza
*Nomes fictícios foram utilizados para preservar a identidade das vítimas.
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Um comentário
Excelente matéria!
Por esse motivo as “Bets” estão patrocinando clubes de futebol com valores recordes.