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Batalha dos Aflitos: há 20 anos, o Grêmio vencia o Náutico em jogo histórico no Campeonato Brasileiro

Em 26 de novembro de 2005, a Batalha dos Aflitos se tornou um dos jogos mais tensos e emocionantes da história do futebol mundial | Foto: Arquivo/DP/D.A Press

Em 26 de novembro de 2005, a Batalha dos Aflitos se tornou um dos jogos mais tensos e emocionantes da história do futebol mundial | Foto: Arquivo/DP/D.A Press

Há exatos 20 anos, no dia 26 de novembro de 2005, em um sábado, o Grêmio vencia o Náutico no Estádio dos Aflitos, em Recife (PE), e conquistava o título da Série B do Campeonato Brasileiro. A vitória garantiu ao Tricolor Gaúcho o retorno à Série A, em 2006, e entrou para a história como um dos jogos mais emocionantes do futebol mundial.

A partida, conhecida como Batalha dos Aflitos, ficou marcada por polêmicas da arbitragem, dois pênaltis a favor do Náutico, confusão generalizada por mais de 20 minutos e enorme tensão demonstrada por ambos os clubes.

Prelúdio

O Grêmio foi rebaixado pela segunda vez após encerrar o Campeonato Brasileiro de 2004 na última colocação, enquanto o Náutico não disputava a primeira divisão desde 1994. A Série B de 2005 foi a última edição do torneio antes de ser implementado o sistema de pontos corridos, sendo disputada em três fases e, ao final, promovendo somente duas equipes à primeira divisão. Na primeira fase, o Grêmio acabou em quarto lugar e o Náutico em sétimo. Na segunda, com dois grupos de quatro, o Náutico venceu seu grupo e o Grêmio ficou em segundo. Assim, ambos foram para o quadrangular final que determinaria as equipes promovidas à Série A.

No dia 26 de novembro de 2005, Recife (PE) recebeu dois jogos da última rodada. No Estádio do Arruda, o Santa Cruz enfrentou a Portuguesa, enquanto no Estádio dos Aflitos o Náutico recebeu o Grêmio. Apenas a Portuguesa tinha poucas chances de promoção. O Grêmio precisava de, no mínimo, um empate para se garantir na Série A de 2006 e de uma vitória para ser campeão da Série B. O Náutico precisava vencer o Grêmio para garantir o acesso ao lado do Santa Cruz. A problemática situação financeira do Grêmio implicava que, em caso de não classificação, o clube poderia decretar falência.

Classificação antes do jogo

PosiçãoTimePontosJogosVitóriasEmpatesDerrotasGols marcadosGols sofridosSaldo de gols
1Grêmio19523074+3
2Santa Cruz27521257-2
3Náutico6520365+1
4Portuguesa55122810-2
  1. Promovido para a Série A em 2006. ↩︎
  2. Promovido para a Série A em 2006. ↩︎

A Batalha dos Aflitos

Prévia e primeiro tempo

Antes mesmo do início da partida, jogadores, dirigentes e torcedores do Náutico demonstravam hostilidade ao Grêmio. Dirigentes e torcedores gremistas foram forçados por funcionários do Náutico a entrar no Estádio dos Aflitos passando pela torcida adversária, enquanto os atletas entraram em um minúsculo vestiário recém-pintado, com uma porta fechada a cadeado que impedia o acesso ao gramado para o aquecimento. Para piorar a situação, o tamanho do vestiário fora reduzido. Foi erguida uma parede, e o espaço para que o Grêmio realizasse o aquecimento era menor que o normal. Além disso, a tradicional buzina utilizada para soar por todo o bairro que era ligada nas vitórias do Náutico foi acionada dentro do espaço destinado aos jogadores gremistas. 

O Grêmio entrou em campo para aquecer, rompendo a barreira policial e se deparando com o Náutico já com uniformes de jogo, pronto para a imortal Batalha dos Aflitos. Era hora de voltar aos vestiários e trocar de roupa. A partida começou com 25 minutos de atraso

Desde o início do jogo, o nervosismo era claro em todos em campo, com jogadas ríspidas e reclamações constantes. O Náutico atacava mais, esbarrando na fechada defesa do Grêmio. O clube pernambucano teve um pênalti marcado a favor aos 31 minutos. No entanto, Bruno Carvalho chutou na trave e o Náutico perdeu a primeira chance de abrir o placar.

O primeiro tempo foi relativamente tranquilo. As maiores confusões ocorreriam apenas na etapa final.

Na Batalha dos Aflitos, jogadores do Grêmio foram colocados em um minúsculo vestiário com cadeados que impediam o acesso ao gramado | Foto: Ricardo Duarte/Agência RBS
Na Batalha dos Aflitos, jogadores do Grêmio foram colocados em um minúsculo vestiário com cadeados que impediam o acesso ao campo | Foto: Ricardo Duarte/Agência RBS

Segundo tempo

No segundo tempo, o Náutico continuou pressionando o Grêmio, mas era incapaz de abrir o placar, mesmo após alcançar vantagem numérica com a expulsão do lateral tricolor Alejandro Escalona aos 30 minutos. Naquele momento, o objetivo do Grêmio de segurar um empate para garantir o acesso à Série A era atingido. Porém, aos 35 minutos, o árbitro Djalma Beltrami anotou mais um pênalti para o Náutico, garantindo que houve um toque do cotovelo do volante gremista Nunes.

Considerando a marcação injusta, os jogadores do Grêmio se revoltaram e foram tirar satisfação com o árbitro, que expulsou Nunes e Patrício após ser agredido pelos atletas. A Polícia Militar de Pernambuco invadiu o campo e agrediu os jogadores gremistas. Com isso, instaurou-se uma confusão generalizada, com reservas, dirigentes e torcedores entrando no gramado. A partida ficou paralisada por 27 minutos, com o meia Marcel arrancando a grama da marca do pênalti a fim de impedir a cobrança, e Domingos sendo expulso após tirar a bola das mãos de Beltrami. 

Briga generalizada teve intervenção da polícia, quatro jogadores do Grêmio expulsos e paralisação de 27 minutos | Foto: Agência O Globo
Briga generalizada na Batalha dos Aflitos teve intervenção da polícia, quatro jogadores do Grêmio expulsos e paralisação de 27 minutos | Foto: Agência O Globo

Em meio ao caos, Anderson, que mais tarde seria o herói da Batalha dos Aflitos, deu uma entrevista à Rede Globo ainda dentro de campo, criticando fortemente a arbitragem:

“O juiz estraga o jogo. O Campeonato Brasileiro está uma palhaçada, todo mundo sabe disso. Não adianta, sempre roubando contra time do Sul. Não dá, está de palhaçada”, criticou o jogador.

Os dirigentes do Grêmio ameaçaram tirar o time de campo em diversas oportunidades. Segundo eles, essa poderia ser a única chance de tentar reverter, nos tribunais desportivos, um quadro que, no campo, parecia irreversível: com apenas sete jogadores em campo, uma expulsão a mais do Tricolor encerraria a partida, pois as regras impedem um time de ter menos de sete homens. Se o Grêmio sofresse o gol de pênalti, precisaria, com quatro jogadores a menos, fazer um gol para empatar o jogo e subir para a primeira divisão. Porém, ao constatar que o jogo havia sido interrompido por falta de condições de segurança, os tribunais desportivos poderiam anular o resultado para auxiliar o time gaúcho.

No entanto, o técnico Mano Menezes decidiu que retirar a equipe de campo seria algo negativo, e decidiu conter os jogadores que tentavam impedir a entrada de Beltrami antes de falar com o árbitro e o então presidente do Grêmio, Paulo Odone. Após discutir com um advogado, Odone decidiu que o risco de depender de uma decisão da justiça desportiva não valia a pena, e pediu ao goleiro Galatto que tomasse parte na cobrança. Os ânimos arrefeceram e os jogadores gremistas voltaram às suas posições. O árbitro, mesmo agredido com chutes, não expulsou o quinto jogador do Grêmio, o que poderia garantir a vitória do Náutico.

O zagueiro Ademar foi escolhido para cobrar a penalidade que poderia decretar a falência do clube gaúcho. Entretanto, Galatto defendeu a cobrança com os pés, e no escanteio o Grêmio armou um contra-ataque, no qual Anderson disparou para o campo adversário, mas sofreu falta de Batata, que levou o segundo cartão amarelo e foi expulso. Setenta e um segundos depois, Anderson levantou e, sozinho, driblou a zaga pernambucana, anotando o único gol da partida aos sessenta e um minutos do segundo tempo: Grêmio 1×0 Náutico. Ali, nascia mais um ídolo Imortal, eternizado no painel que atualmente dá acesso ao gramado da Arena do Grêmio, em Porto Alegre (RS).

Com apenas 17 anos, Anderson foi imortalizado na história do Grêmio ao marcar o gol da vitória na Batalha dos Aflitos | Foto: Ricardo Duarte/Agência RBS
Gol de Anderson foi eternizado na Arena do Grêmio | Foto: Tomás Hammes/Globo Esporte RS
Gol de Anderson foi eternizado na Arena do Grêmio, em Porto Alegre (RS) | Foto: Tomás Hammes/Globo Esporte RS

Atônitos, jogadores e torcedores do Náutico ficaram sem reação com o que acontecia, enquanto jogadores e comissão técnica do Grêmio corriam para todos os lados chorando e comemorando algo que, minutos antes, conforme colocado pelo narrador Pedro Ernesto Denardin, da Rádio Gaúcha, “só aconteceria por um milagre”. E assim, o Grêmio voltava à elite do futebol brasileiro.

Jogadores do Grêmio comemoram vitória na Batalha dos Aflitos | Foto: Reprodução/Revista Placar

Como no outro jogo havia vencido a Portuguesa por 2 a 1, o Santa Cruz já confirmava o acesso à Série A e mantinha o título da segunda divisão enquanto a Batalha dos Aflitos não terminava. Desta forma, jogadores e dirigentes do clube chegaram a dar a volta olímpica no Estádio do Arruda com um troféu improvisado. No entanto, o gol do Grêmio sobre o Náutico garantiu o título da Série B ao time gaúcho e a incrível vitória na histórica Batalha dos Aflitos.

“É inacreditável! I-na-cre-di-tá-vel. Com sete homens em campo! Com sete homens em campo, o Grêmio está fazendo uma façanha. Só o Grêmio, a sua força, a sua fé… Eu nunca vi isso, o mundo nunca viu nada parecido. O Grêmio está fazendo uma façanha extraordinária, uma façanha que não tem na história do futebol mundial” – Pedro Ernesto Denardin, narrador da Rádio Gaúcha.

O estacionamento em que os carros dos jogadores do Náutico ficaram guardados era ao lado da sede da torcida, sem divisórias. Após a partida, torcedores revoltados se amontoaram na porta dos vestiários gritando palavras de ordem enquanto seguranças tentavam contê-los. Do lado de dentro, os atletas mais jovens, formados no clube, só ouviam sons de socos e chutes na parede. Até a situação ser controlada, já era madrugada de domingo.

Legado

Endividado, sem grandes craques e beirando à falência, o acesso à Série A marcou o início de uma nova era para o Grêmio, que, nos anos seguintes, voltou a se consolidar como uma potência no futebol brasileiro. 

A Batalha dos Aflitos foi amplamente comentada pela imprensa gaúcha, nacional e até mesmo internacional. Em especial, foi ressaltado como a Batalha dos Aflitos marcou a redenção do Grêmio, que ia fechando uma temporada em baixa com um jogo dramático, e conseguiu superar todas as dificuldades em apenas 71 segundos para voltar à Série A do Campeonato Brasileiro, em 2006.

O jornal britânico The Times ressaltou os feitos do Tricolor Gaúcho e o caráter atípico da partida, denominando o Grêmio como o “Fight Club“, em referência ao premiado filme homônimo de David Fincher. O portal uruguaio Fútbol destacou o desempenho do clube como “milagroso e heróico”.

O narrador Pedro Ernesto Denardin, que acompanhou a Batalha dos Aflitos pela Rádio Gaúcha, ressaltou no ato do gol da vitória do Grêmio que o time realizava uma façanha sem igual na história do futebol. No aniversário de dez anos da Batalha dos Aflitos, Denardin destacou ao SporTV que o feito segue vivo na memória dos torcedores gremistas e do esporte:

“É uma coisa realmente inacreditável o que aconteceu, jamais imaginei que pudesse ver alguma coisa parecida com aquilo. O Grêmio, com sete homens contra 11, conseguiu fazer o gol que deu a vitória. Temos aí a Batalha dos Aflitos, um dos episódios mais marcantes da história do futebol brasileiro”, disse.

Posteriormente, a vitória Tricolor originou o livro “71 Segundos – O Jogo de Uma Vida” (2006) e o documentário “Inacreditável – A Batalha dos Aflitos” (2006).

A revista especializada Panenka publicou o artigo “Cuando el Inmortal estuvo a punto de morir” na edição de novembro de 2015, comemorando o aniversário de 10 anos da Batalha dos Aflitos e a conquista histórica do Grêmio.

Confira aqui a Batalha dos Aflitos na íntegra.

20 anos depois

Jogadores que atuaram na Batalha dos Aflitos, em 2005, celebram os 20 anos da conquista do Grêmio | Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Jogadores que atuaram na Batalha dos Aflitos, em 2005, celebram os 20 anos da conquista do Grêmio | Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Para celebrar o feito histórico e inédito no futebol mundial, os heróis gremistas que estiveram em campo no fatídico sábado de 26 de novembro de 2005, realizaram uma volta olímpica no intervalo do jogo entre Grêmio e Palmeiras, nesta terça-feira (25). A torcida gremista celebrou os ex-jogadores imortalizados na história do clube.

Participaram da ação Galatto, Alessandro, Luiz Felipe, Tiago Prado, Tiago Duarte, Marcos, Marco Aurélio (Jacozinho), Bruno Ferraz, Pereira, Patrício, Lucas Leiva, Luiz Fernando, Raone e Nunes. 

Vinte anos depois, a Batalha dos Aflitos segue revelando ao mundo inteiro por que o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense é IMORTAL.

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