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Agosto Dourado amamentar é ato de amor, mas também pode doer e tudo bem sentir isso

Psicóloga perinatal explica por que amamentar envolve prazer dor culpa e frustração e reforça que a escuta sem julgamento é essencial para acolher mães nesse processo

O Agosto Dourado é conhecido por reforçar a importância do aleitamento materno e seus benefícios nutricionais para o bebê mas há uma parte da experiência da amamentação que permanece invisível nos debates públicos a carga emocional que recai sobre a mulher. A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo fundadora do Instituto MaterOnline afirma que o ato de amamentar pode envolver dor física exaustão profunda sentimentos ambivalentes e ainda assim carregar prazer vínculo e até reparação emocional. Tudo ao mesmo tempo.

A amamentação vai além da nutrição e muitas vezes atravessa a mulher com sensações intensas e contraditórias. É possível sentir amor e angústia no mesmo momento prazer e repulsa cansaço e culpa e tudo isso precisa ser reconhecido como parte legítima da vivência materna. Para Rafaela esses sentimentos não indicam falta de amor nem falha na função de mãe. São reações humanas diante de um processo exigente que mistura biologia expectativas sociais e experiências subjetivas.

Durante a gestação é comum que a mulher comece a alimentar expectativas sobre a amamentação e junto a isso surjam inseguranças como o medo de não conseguir alimentar o bebê como deveria a pressão para manter o aleitamento exclusivo e o receio de não corresponder ao ideal de uma boa mãe. Quando surgem dificuldades nos primeiros dias como dor no peito fissuras ou pega incorreta esses sentimentos se intensificam. A frustração por não atender às expectativas muitas vezes se transforma em culpa silenciosa.

Para lidar com esse cenário Rafaela defende uma preparação emocional honesta sem romantizações. As gestantes precisam ouvir que amamentar pode ser difícil e que isso não define sua capacidade de amar ou cuidar do bebê. As conversas devem incluir não só o que é o leite materno mas o que é a mulher que amamenta. Validar dúvidas medos dores e até a vontade de parar é parte do processo de apoio emocional. Não existe maternidade perfeita nem fórmula ideal para atravessar essa etapa da vida.

Amamentar também pode servir de gatilho emocional. Algumas mulheres ao oferecer o peito podem reviver traumas antigos como experiências de violência obstétrica ou sentimentos de abandono e solidão durante o puerpério. A amamentação carrega significados simbólicos que muitas vezes não são discutidos mas que interferem diretamente na saúde mental da mãe. Por isso é necessário um olhar mais atento e uma escuta mais empática por parte dos profissionais e da sociedade.

A cobrança para que a mulher dê conta de tudo por si só já é um fardo. Mesmo aquelas que conseguem amamentar sem grandes dificuldades podem se sentir exaustas esgotadas e em conflito com suas próprias emoções. A exaustão também é legítima e precisa ser acolhida. A maternidade real não é feita de perfeição mas de tentativa erro cansaço e descoberta. O silêncio imposto às mães que sofrem enquanto amamentam contribui para o adoecimento psíquico e precisa ser quebrado.

A psicologia perinatal tem como papel central oferecer escuta e acolhimento. Rafaela explica que seu trabalho não é convencer uma mulher a amamentar nem desencorajá-la. O que importa é o que aquela mulher está vivendo naquele momento. Validar sua dor seu prazer sua culpa sua dúvida é o que permite a construção de um caminho possível. Nomear o que se sente pode trazer alívio mais do que qualquer técnica. Muitas vezes a mãe só precisa ouvir que o que ela sente é normal.

Cada história é única. Há mulheres que amamentam com facilidade e se sentem plenas outras enfrentam dor repulsa ou simplesmente não conseguem. Nenhuma dessas experiências define o valor dessa mãe. O julgamento apenas afasta e isola. O acolhimento aproxima e fortalece. A escuta sem fórmula pronta sem frases feitas e sem correções automáticas é o que abre espaço para a reconstrução da segurança emocional da mulher. Nesse sentido a psicologia se coloca como uma aliada da saúde integral da mãe e do bebê.

Rafaela Schiavo atua desde sua formação com foco na saúde mental materna. Psicóloga perinatal é fundadora do Instituto MaterOnline e autora de inúmeros estudos voltados à prevenção do sofrimento emocional durante a gravidez e o puerpério. Formada pela Universidade Estadual Paulista concluiu mestrado doutorado e pós doutorado com ênfase em desenvolvimento humano e psicologia da parentalidade. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a escuta sensível e a valorização da experiência subjetiva das mães brasileiras.

No mês em que se fala tanto sobre o ouro do leite materno é preciso lembrar também daquilo que não se vê daquilo que dói e que muitas vezes é silenciado. O que a mulher sente ao amamentar é tão importante quanto o que ela oferece. Nenhuma dor deve ser ignorada nenhum cansaço deve ser deslegitimado. A escuta sem julgamento é um cuidado que transforma.

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