O número disparou nos últimos dois anos e reforça a urgência de ambientes de trabalho mais seguros e humanizados
O Ministério Público do Trabalho (MPT) apontou que os afastamentos por transtornos relacionados à saúde mental cresceram 134% entre 2022 e 2024. O aumento é impulsionado principalmente por quadros de ansiedade, burnout e depressão, que vêm se tornando cada vez mais frequentes entre trabalhadores de diferentes setores.
O dado reflete a deterioração da qualidade de vida do profissional, influenciada por fatores como pressão por resultados, longas jornadas, assédio moral, estresse constante e dificuldades socioeconômicas. A combinação desses elementos coloca milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade emocional.
Esse foi o caso de Gabrielle Gomes, 30, que em 2022 sofreu episódios de assédio moral em seu trabalho anterior. Mesmo com diagnóstico médico de ansiedade — do qual a empresa tinha ciência — ela relata que teve o transtorno desacreditado por uma superior. “Ela olhou pra minha cara e falou que essa doença era inventada”, lembra.
Após sofrer uma crise de ansiedade no estoque, Gabrielle buscou atendimento no Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM), onde foi afastada por 14 dias. Segundo ela, a psiquiatra responsável evitou conceder 15 dias de atestado para que não fosse encaminhada automaticamente ao INSS por incapacidade temporária.

Foto: Reprodução / Freepik
Como funciona a NR-1
Em vigor desde maio deste ano, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que as empresas devem identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Entre esses riscos estão:
- Assédio moral e sexual
- Falta de suporte organizacional
- Jornadas excessivas
- Sobrecarga de tarefas
- Metas inatingíveis
- Comunicação autoritária ou hostil
A norma exige que empregadores implementem ações de prevenção e cuidado, incluindo:
- Análise Ergonômica do Trabalho (AET), com foco também na saúde mental
- Programas de apoio psicológico
- Políticas contra assédio e discriminação
- Monitoramento do estresse entre colaboradores
- Desenvolvimento do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO)
- Medidas que promovam equilíbrio entre vida pessoal e profissional
Empresas que não cumprem as diretrizes podem sofrer multas, exigências de adequação e enfrentar consequências como alta rotatividade e queda de produtividade.
Reconstrução e cuidado com a saúde mental
Hoje, Gabrielle trabalha em uma empresa que segue as diretrizes da NR-1 e oferece suporte consistente à saúde mental dos funcionários. O ambiente atual conta com teleatendimento psicológico e psiquiátrico, convênio com cobertura para saúde emocional, espaço aberto para diálogo com o Recursos Humanos e políticas estruturadas de prevenção de riscos psicossociais.
Além disso, ela continua em acompanhamento psicológico externo enquanto reorganiza sua rotina após o adoecimento vivido na antiga empresa. “Eu ainda estou me reconstruindo, mas agora tenho um ambiente que não me adoece”, afirma.
Para especialistas, casos como o de Gabrielle evidenciam que cumprir a NR-1 não é apenas uma exigência legal, é uma forma de prevenir sofrimento, reduzir afastamentos e garantir que trabalhadores não precisem escolher entre manter o emprego e preservar a saúde.












