Artistas e pesquisadores da comunicação refletem sobre os limites entre arte e a IA
Quando o assunto é a complexa relação entre a Arte e a Inteligência Artificial, não há consenso: entre as três primeiras reportagens que o Google apresenta sobre o tema, a primeira, publicada no Espaço de Conhecimento da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), promove uma reflexão sobre o tema sem defender uma clara posição editorial; a segunda, disponível no site da Academia Brasileira de Arte (ABRA), se concentra nas polêmicas geradas pelo uso da Inteligência Artificial nas artes e defende a regulamentação dessas ferramentas; a terceira, produzida pela BBC News, também se mostra pessimista quanto ao assunto, especialmente no que diz respeito aos direitos autorais de artistas reais que podem ter seus estilos “roubados” através das plataformas de geração de imagens.
Mas será mesmo possível afirmar que “a arte está morta” enquanto diversos artistas se apropriam da linguagem de programação para a produção de suas obras? Essa é a rotina de Thiago Britto, artista visual, pesquisador e diretor de fotografia juiz-forano que procura reconstruir a memória negra a partir desses prompts de produção de imagens. O objetivo de Britto é recontar as histórias silenciadas das pessoas pretas a partir de um lugar de afetividade e resistência. O desafio – e o processo artístico! – está em confeccionar descrições tão específicas que subvertem a hostilidade dessa linguagem treinada a partir de conhecimentos humanos localizados e socialmente enviesados.
Quando questionado em sua exposição sobre as suas obras serem reais ou não, o artista não hesita: “Vai depender da sua perspectiva, vai depender de como ‘te bate’ […]. Tem pessoalidade a partir do momento que o espectador sente. Então assim, cara, se você sente algo, se te arrepiou, se te tocou, se te emocionou… então eu faço parte! Se não te emocionou, então realmente foi só a máquina […]. Se te causou sentimento, é humano!”.
Arte e Inteligência Artificial também são debatidas na academia
Professores da Universidade Federal de Juiz de Fora, o Dr. Eli Borges Jr. e a Dra. Talita Magnolo, que concentram suas pesquisas em diferentes perspectivas sobre a Inteligência Artificial, também procuram explicações menos simplistas sobre o uso das ferramentas de IA na arte. Quando questionados sobre o tema, Talita e Eli concordam que há dois pontos de vista possíveis no que se refere ao reconhecimento das imagens produzidas digitalmente: enquanto os defensores das Belas Artes acreditam na superioridade dos produtos feitos de forma artesanal, há uma nova corrente de interpretação que tem como central as reflexões do artista sobre a própria obra.
Para Talita, “A Inteligência Artificial é uma ferramenta. Quando a fotografia vem, ela é malquista pelos pintores; quando o cinema vem, ele é malquisto pelos fotógrafos […]. A IA está sendo malquista por alguns, mas está sendo usada para aprimorar, incrementar, evoluir o processo criativo”.
Embora também reconheça as opiniões divergentes sobre o uso de ferramentas de criação no universo artístico, Eli defende que os tensionamentos sobre as consideradas “novas” formas artísticas, “pPerduram até hoje, e perduram com legitimidade. A arte também permite esse jogo de interesses e de tensões. A própria arte comporta essa diferença de visões. Isso mostra também que a arte é, em última instância, política”.
Mas os artistas vão desaparecer?
Em meio a um campo que ainda está claramente em disputa, uma questão parece fazer bastante barulho entre os artistas: A arte pode tomar seu lugar? É possível que essas novas apropriações da Inteligência Artificial façam a figura do artista desaparecer?
“Depende. Se o artista é aquele que cria uma obra a partir da virtude e da técnica, e essa técnica é conduzida a partir do corpo humano, talvez sim […], mas eu acho que a própria ideia de arte comporta um significado mais amplo, e de artista também. Então se a gente pensa o artista como aquele capaz de criar obras ou capaz de criar ideias a partir da técnica e de como isso institui uma espécie de ruptura no cotidiano, na ordinariedade, porque eu diria que a arte, além de qualquer coisa, é essa, a possibilidade de nos surpreender dentro da rotina do mundo, da mundanidade do mundo. Se o artista se propõe a isso e faz isso, acho que não importa a técnica da qual ele se utilize, por isso seria possível, eu diria, haver arte num contexto de Inteligência Artificial […]”, argumenta Borges.
Thiago também acredita na resistência do artista: “O desaparecimento da gente lá dentro é um desaparecimento social, da nossa falta de percepção sobre si próprio; porque não existe outra forma dela [a IA] se desenvolver se a gente não propuser que ela se desenvolva, ou que tipo de backup a gente coloca, é aí que eu falo sobre o povo preto, em que momento o povo preto vai ser registrado na história de maneira saudável?”
Para Talita, não se pode prever ou esperar determinados comportamentos da IA no futuro, já que ela surpreende a cada dia, mas é preciso estabelecer relações sólidas e refletir criticamente sobre quais os usos e poder daremos a ela.
Entre as tensões que se colocam a partir dessa discussão, o artista visual, que prefere chamar as Inteligências Artificiais de “Memória Sintética” em um processo de desmistificação do poder absoluto que vulgarmente se atribui à IA, provoca: “Quando é que a gente vai começar a discutir a nossa imaginação como a grande tecnologia das tecnologias?”
Imagem: Na exposição “O Tempo mora no Afeto”, o artista visual Thiago Britto foi questionado sobre a relação das suas obras com a realidade – Divulgação: Thiago Britto












