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 A fábrica de ídolos falhos é o Brasil

No futebol brasileiro, a idolatria virou carência. E a decepção virou rotina.

Massacramos o ídolo no Brasil — futebolisticamente e socialmente falando. Em um país onde a maioria da população está na linha da pobreza, sobrevivendo à base de burnouts e subempregos, os ídolos precisam ser perfeitos… — o problema? São seres humanos. E Raul Seixas já nos adiantou, basta se olhar no espelho para ver que se é “um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado. Que só usa dez por cento de sua cabeça animal”.

Estou aqui para dizer que o milionário que chuta bola é um coitado? Claro que não. Desejo, muito mais, provocar o torcedor a um questionamento maior. Será que não estamos depositando nossa esperança em um nome diferente a cada curto período? Em uma temporada se constrói um ídolo? Em alguns títulos? Qual lógica está sendo usada para a idolatria ao jogador de futebol? Ser craque basta? Ou ele tem que resolver todos os jogos? Quem sabe, então, precise fechar os olhos para o extracampo e sentir a mesma paixão que o torcedor sente.

É muito relativo como cada torcida vive sua paixão. É subjetivo o que cada ser humano espera de outro ser humano — o segundo, sujeito da idolatria e alheio à paixão do primeiro.

Nosso campeonato, berço de craques, também virou terra de retorno. Mas quem volta é objeto de idolatria pelo passado, sem conseguir entregar o mesmo resultado no presente. Volta e se sente pressionado, enquanto o torcedor se sente traído. Afinal, “como ele ousa não entregar em campo o que eu esperava que ele fosse entregar?”, como se houvesse, em contrato, uma cláusula de desempenho obrigatório:

art. 1.1: O craque deve manter o mesmo padrão de quando saiu do Brasil, ignorando seus últimos anos em baixa no exterior.

Eles — leia-se, jogadores — voltam na falácia de que aqui será mais fácil por ter o carinho da torcida, por encontrar um futebol mais “abaixo”. Voltam na esperança de magicamente reencontrar o futebol que um dia tiveram, enganando-se a si e aos torcedores tão felizes com o seu retorno.

E quanto a nós, apaixonados?

Não estamos prontos para ter ídolos. Não conseguimos aceitar que é normal estar abaixo do desempenho — não pelo que foram, mas pelo que são agora. E vou além: não estamos prontos nem para apontar ídolos. Anos após anos, surgem ídolos de meio título, de dez gols na temporada. Virou artilheiro? Pronto: entregam-lhe o distintivo de ídolo do clube.

Quem recebe essa honraria, muitas vezes, nem sabe o que fazer com ela. Estamos nos decepcionando com aquilo que nós mesmos criamos. Colocamos pessoas no topo do nosso pódio, no lugar mais reservado do nosso coração, ao lado do amor pelo clube. Mas aquela pessoa não pediu para estar ali. Não quer estar ali. Não sabe o que fazer ali. À medida que a honra chega, chegam junto as cobranças. E, com elas, o ídolo se enfurece, não quer mais aquela posição tão árdua de fazer felizes milhares de pessoas. O resultado? Tão óbvia como sempre foi, vem ela: a decepção, mas, dali a poucos meses, faremos tudo de novo — seja com quem volta ao Brasil, seja com quem acabou de surgir.

Precisa-se de muito pouco para receber e para perder o título de ídolo por aqui.

São tantos casos só em uma temporada… A mais falada na semana foi o ídolo que discutiu com o apaixonado, e o clube que denunciou o torcedor. O coitado? Ele é só um apaixonado, que, quando menos esperar, estará lá de novo fingindo que não doeu a traição e procurando um novo ídolo para si.

Me questiono até que ponto está sendo saudável para a construção do futebol brasileiro essa idolatria a pessoas do passado em conjunto ao surgimento de ídolos precoces? Essa carência talvez não seja o principal fator que nos leva aos fracassos — nos clubes e na seleção? Deixar o passado no passado, e o presente com tempo para se consolidar, não seria o ideal que nos daria mais oportunidade de ver coisas boas surgirem.

Imagem: Reprodução/Premiere

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