
Evento gratuito discute desigualdades estruturais, justiça climática, saúde e estratégias para promover o bem viver como caminho de emancipação coletiva
No próximo sábado (23), o Rio será palco do Festival Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que acontece a partir das 10h no Centro de Artes Calouste Gulbenkian (Praça XI). A programação, gratuita e aberta ao público, reunirá pensadoras, ativistas e lideranças para debater questões urgentes como desigualdades estruturais, violência racial e de gênero, justiça climática, saúde e o conceito de bem viver.
Entre as presenças confirmadas estão Conceição Evaristo, que levará suas escrevivências para o debate sobre emancipação e voz a mulheres negras, além de Luyara Franco, Lúcia Xavier, Tia Maria, Jaqueline Gomes de Jesus e Ana Paula Oliveira. O evento é organizado por instituições como ONG Criola, Instituto Marielle Franco, Fórum Estadual de Mulheres Negras RJ, Conexão G, Instituto Búzios, Mulheres Negras Decidem e Rede de Mulheres Negras RJ.
O festival também terá caráter solidário: o público poderá contribuir com a arrecadação de absorventes destinados a mulheres encarceradas. A atividade integra as mobilizações para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para 25 de novembro de 2025, em Brasília, que pretende reunir um milhão de pessoas.
Mulheres negras no centro do debate
Colocar mulheres negras no centro dessa discussão é fundamental diante de um cenário de desigualdades históricas. Dados da PNAD Contínua/IBGE (2022) mostram que as mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas ainda são o grupo mais vulnerável social e economicamente.
No mercado de trabalho, a desigualdade é gritante: de acordo com o Dieese (2024), mulheres negras recebem em média 47,5% menos que homens não negros. A informalidade também é mais alta — 47,2% das trabalhadoras negras estão em empregos sem carteira assinada ou por conta própria, segundo relatório do Ministério do Trabalho e Emprego (2024).
Na saúde, os desafios não são menores. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (2025), produzido pelo Ministério das Mulheres, aponta que mulheres negras são as que menos acessam acompanhamento ginecológico regular e estão mais expostas à mortalidade materna evitável. Esses números refletem o que o festival busca enfrentar: a sobreposição de desigualdades de raça e gênero que limitam o direito ao bem viver.
Para além da denúncia, um novo pacto civilizatório
O encontro não se restringe à denúncia das violências. O objetivo é também projetar o que pensam as mulheres negras sobre a democracia brasileira, convocando a sociedade a construir um novo pacto civilizatório, no qual igualdade de direitos e oportunidades seja realidade.
Como destaca a convocatória do evento, trata-se de pensar “um país onde todas e todos possam viver plenamente a igualdade de direitos e oportunidades”. No centro dessa transformação estão as mulheres negras, que há séculos sustentam o Brasil com sua força de trabalho, sua produção intelectual e sua luta política, mas ainda aguardam o reconhecimento e a reparação histórica que lhes é devida.
Mulheres negras por reparação e bem viver
Significa um movimento político e social no qual mulheres negras se colocam na linha de frente, exigindo:
• justiça histórica (reparação das desigualdades),
• políticas de equidade racial e de gênero,
• e a construção de uma sociedade em que possam viver com dignidade, saúde, afeto, liberdade e direitos garantidos.
Do festival à marcha: reafirmando direitos
Mais do que um festival, o Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver é uma convocatória. Um espaço de articulação, afeto e resistência que reafirma: não há democracia sem a centralidade das mulheres negras, e não há futuro possível sem reparação e bem viver.
O evento também se conecta à Marcha das Mulheres Negras, que desde 2015 reúne milhares de pessoas para denunciar o racismo, a violência de gênero e a desigualdade social, e para reafirmar o protagonismo político e social das mulheres negras. A marcha é um símbolo histórico de resistência e mobilização, convocando a sociedade a construir políticas públicas e práticas sociais que efetivamente promovam igualdade e reparação.












2 Comentários
Amei seu artigo ,caracteriza com veemência o fundamento de uma pauta que prescisa ser cada vez mais cuidada , de forma delicada , prescisa e principalmente clara ,à ponto de nos aprofundarmos mais.
Obrigada pelo feedback, Lucas!