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Com Cowboy Carter, Beyoncé resgata a presença negra no country e transforma o álbum em um documento político e cultural

O segundo ato da trilogia de Beyoncé amplia a disputa simbólica por espaço, memória e pertencimento dentro da cultura norte-americana

Foto capa: Julian Dakdou

Muito além de um álbum, Cowboy Carter é um manifesto. Lançado em março de 2024, o projeto de Beyoncé desconstrói, confronta e ressignifica o imaginário do country norte-americano, um dos estilos musicais mais brancos e conservadores dos Estados Unidos, ao inseri-lo dentro de uma narrativa negra, feminina e rebelde. É a resposta a séculos de apagamento cultural, ao mesmo tempo, em que é um gesto de reivindicação: essa América também é nossa.

A gênese do disco remonta a um episódio de violência simbólica: Beyoncé sendo vaiada ao se apresentar em uma premiação country em 2016. O que poderia ter sido um ponto final virou início de um mergulho profundo em raízes negras que foram deliberadamente arrancadas da história oficial. Como a própria artista explicou em seu Tour Book, “este não é um álbum country, é um álbum de Beyoncé”. Ao afirmar isso, ela contesta o que se entende por pertencimento e autoria, subverte expectativas e se recusa a se limitar por rótulos que não a contemplam.

A apresentação no Country Music Awards em 2016 que fez Beyoncé criar o Cowboy Carter – Foto: Getty Images

A materialidade do álbum também é narrativa. A capa traz Beyoncé montada de lado em um cavalo branco, em posição historicamente associada a figuras femininas aristocráticas, mas aqui ressignificada com o uso da bandeira americana, das cores nacionais e da estética faroeste. É um aceno direto aos cowboys negros que moldaram o Oeste, mas que desapareceram das imagens oficiais. É também um questionamento profundo sobre quem tem o direito de carregar os símbolos da nação. A escolha do cavalo branco da raça Lipizzan, que nasce escuro e se torna branco com o tempo, funciona como metáfora do branqueamento histórico de tudo o que um dia foi negro, inclusive o próprio country.

Na construção de Cowboy Carter, Beyoncé convoca uma genealogia sonora ancestral, trazendo nomes como Willie Jones, Tanner Adell, Shaboozey e Linda Martell. Esta última foi uma das primeiras mulheres negras a cantar country em um cenário de racismo explícito. A escolha dessas participações não é casual, é pedagógica. Beyoncé desenha uma linha do tempo e, ao mesmo tempo, um território. Um território onde as vozes negras podem existir sem concessões, resgatando uma história soterrada pelos mitos da branquitude estadunidense.

Capa do álbum CowBoy Carter – Foto: Divulgação

A turnê que acompanha o álbum não é apenas um desdobramento visual. É uma extensão política e estética do que Cowboy Carter representa. A presença de Blue Ivy e Rumi, filhas de Beyoncé e também meninas negras, nos shows adiciona uma camada potente de herança e continuidade. Ao lado de participações de artistas negros que compõem a narrativa do espetáculo, e de figurinos que cruzam tradição e futurismo, Beyoncé constrói uma apresentação que vai além da performance. É uma aula de história, de arte e de resistência.

Ao afirmar seu lugar dentro de um gênero musical que a rejeitou, Beyoncé não está apenas exigindo espaço. Está reescrevendo a história da música americana com as próprias mãos. O cavalo de Beyoncé não é só uma metáfora da liberdade, é um gesto de reparação simbólica. Cowboy Carter é o som de uma mulher negra desmontando a casa grande, transformando um território hostil em estrada fértil para futuras artistas negras.

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