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Nova novela das 9 da TV Globo, Três Graças destaca a força e a resiliência das mães solo, tema que também faz parte da trajetória da psicoterapeuta Daniele Caetano
A estreia da novela Três Graças, próxima trama das 9 da TV Globo, promete emocionar o público com uma história de amor, coragem e superação. No centro da narrativa está Gerluce, interpretada por Sophie Charlotte, mulher batalhadora que vive os dilemas da maternidade solo enquanto tenta equilibrar o cuidado com a filha, Joélly Maria das Graças (Alana Cabral), e o relacionamento com a mãe, Lígia Maria das Graças (Dira Paes). A personagem é retratada como o coração de uma família que se apoia mutuamente para enfrentar as dificuldades da vida, em uma história que dialoga diretamente com a realidade de milhões de brasileiras.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 11,5 milhões de lares no país são chefiados por mães solo, o equivalente a 16,5% das famílias brasileiras. O levantamento mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostra ainda que cerca de 31% dessas mulheres vivem abaixo da linha da pobreza, enfrentando, além das responsabilidades familiares, desafios financeiros e emocionais diários. A figura da mãe solo, por muito tempo invisibilizada nas políticas públicas e na mídia, ganha agora um retrato mais realista e empático na dramaturgia.
Para a psicoterapeuta Daniele Caetano, mãe solo de duas meninas e fundadora da Caminhos da Terapia e da Mentoria Bem Me Quero, a novela traz uma oportunidade de ampliar o debate sobre o papel das mães solo e de desmistificar preconceitos históricos. Ela explica que a maternidade solo é atravessada por uma sobrecarga emocional, social e física, mas também por um senso profundo de autonomia, propósito e amor.
“O cansaço, a culpa e a solidão fazem parte dessa jornada, mas também existe uma força silenciosa que se constrói todos os dias”, afirma. “A maternidade solo é um exercício constante de coragem, organização e entrega. É uma reconstrução de identidade e de pertencimento, tanto como mulher quanto como mãe.”
Além dos desafios emocionais, Daniele aponta que a falta de políticas públicas específicas agrava a realidade de muitas mulheres. Segundo o estudo “Mulheres Chefes de Família e Desigualdades Sociais”, do Ipea, mães solo estão entre os grupos mais vulneráveis do país com acesso limitado a creches, oportunidades de trabalho formal e apoio psicológico. Criar mecanismos de suporte e acolhimento, segundo ela, é essencial para reduzir desigualdades e promover o bem-estar familiar.
Para Daniele, a rede de apoio é um dos pilares mais importantes dessa caminhada. Amigos, familiares e grupos de mães, inclusive comunidades online, funcionam como espaços de escuta, acolhimento e troca. Esses vínculos ajudam a aliviar a sobrecarga mental e o sentimento de isolamento, permitindo que cada mulher se reconheça não apenas como cuidadora, mas também como alguém que precisa e merece cuidado.
“Pedir ajuda não é fraqueza. É reconhecer que o amor também se constrói coletivamente”, destaca.
Segundo Daniele, cuidar de si mesma é o primeiro passo para cuidar bem dos filhos. Quando uma mãe prioriza sua saúde mental, ela ensina por meio do exemplo o valor do equilíbrio, da empatia e do amor-próprio. “A força da mãe não está em fazer tudo sozinha, mas em se permitir ser humana, vulnerável e inteira.”

O vínculo entre mãe e filho nasce do esforço diário, da entrega e do aprendizado mútuo. Para a psicoterapeuta Daniele Caetano, essa relação pode ser profundamente saudável e fortalecedora quando é guiada pela escuta e pela presença emocional. A criança aprende por observação, e ao ver a mãe se reorganizando diante dos desafios, desenvolve também resiliência, adaptabilidade e autonomia.
Apesar dos avanços, os estigmas ainda persistem. A maternidade solo continua sendo, para muitos, associada à ausência ou ao fracasso, uma visão que Daniele considera ultrapassada e injusta. “A sociedade precisa olhar para essas mulheres não com pena, mas com admiração”, afirma. “Elas representam uma nova configuração familiar, sustentada em amor, esforço e dignidade. Ser mãe solo é exercer todas as funções de um lar com o dobro de responsabilidade e a mesma quantidade de horas no dia. É equilibrar a rotina, o trabalho e o afeto, muitas vezes sem rede de apoio. Mas também é redescobrir, todos os dias, a força que nasce do amor.”
A trajetória de Daniele reflete esse movimento de superação e reconstrução. Em 2023, ela recebeu o diagnóstico de uma doença autoimune rara que afetou temporariamente sua visão. Durante o tratamento, precisou encerrar os atendimentos presenciais e migrar para o formato online. O que poderia ter sido o fim de um ciclo se transformou em expansão. Hoje, Daniele atende pacientes em 12 países e leva suas palestras sobre saúde emocional e propósito para escolas, empresas e instituições religiosas.
Além da atuação clínica, dedica parte do tempo ao Centro de Valorização da Vida (CVV), onde atua como voluntária na prevenção do suicídio e no acolhimento de pessoas em sofrimento psíquico. Sua história é um lembrete de que empatia e escuta também são formas de cura.
Assim como tantas mulheres, Daniele encontrou na maternidade solo um caminho de transformação. Para ela, ser mãe solo é um ato de coragem que redefine o conceito de família. É ser mulher, profissional, cuidadora e ser humano em busca de equilíbrio. É sustentar o amor como base e transformar cada dificuldade em aprendizado.
Esse mesmo olhar atravessa Três Graças, nova novela das 9, que retrata a força, a resiliência e a pluralidade das famílias brasileiras. A personagem Gerluce, assim como Daniele e tantas outras mulheres reais, representa uma geração que se reinventa todos os dias: mulheres que constroem, com afeto e persistência, novas formas de maternar e de existir.
A novela emociona porque fala de algo universal: a força que nasce da vulnerabilidade e o amor que resiste a tudo. A maternidade solo, longe de ser sinônimo de solidão, é símbolo de resistência, empatia e poder. É a prova de que o amor, quando é real, é suficiente para reconstruir o mundo ao redor.












