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Dia da TV no Brasil marca transição para era da TV 3.0

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Apesar da força dos streamings, a TV aberta se reinventa com tecnologia e políticas públicas; especialistas analisam impactos culturais e sociais da nova fase

No Dia Nacional da Televisão, celebrado em 16 de setembro, o Brasil se prepara para uma mudança histórica no setor. O governo federal regulamentou, em agosto de 2025, a TV 3.0, com início das transmissões previsto para 2026 nas capitais brasileiras. O novo sistema promete elevar a qualidade de som e imagem, ampliar a interatividade e fortalecer a inclusão digital, mantendo a gratuidade da TV aberta.

Televisão segue como protagonista cultural

A televisão aberta ainda é o meio de comunicação de maior alcance no Brasil. Segundo estimativas do Ministério das Comunicações, cerca de 80 milhões de lares recebem sinal gratuito de TV, o que garante sua presença como eixo da vida cultural e informativa do país.

O sociólogo Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, ressalta que a TV brasileira tem papel central na formação da esfera pública. “A televisão, especialmente a aberta, não é apenas entretenimento: é também um espaço de referência para debates nacionais, campanhas de saúde e até emergências públicas”, afirma.

Em contraste, plataformas de streaming avançam rapidamente, sobretudo entre as gerações mais jovens. Para o pesquisador Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da USP, o desafio é integrar essas duas experiências. “As novas gerações consomem informação e ficção sob demanda, mas a TV aberta ainda fornece conteúdos de confiabilidade coletiva, como o jornalismo em rede nacional”, avalia.

O que muda com a TV 3.0

O decreto nº 12.595/2025 estabeleceu o padrão ATSC 3.0 como base da TV 3.0. Essa tecnologia possibilita transmissões em 4K e 8K, som imersivo, múltiplos canais e interfaces semelhantes a aplicativos de streaming.

Segundo o engenheiro Francisco Soares Neto, presidente do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD), a adoção trará benefícios sociais além do audiovisual. “A TV 3.0 permitirá que serviços digitais públicos, como agendamento no SUS ou informações de defesa civil, estejam disponíveis gratuitamente na tela da televisão, alcançando até quem não tem acesso constante à internet”, explica.

Outro ponto de destaque é a acessibilidade. De acordo com a pesquisadora Claudia Werneck, fundadora da ONG Escola de Gente, o novo sistema vai possibilitar legendas customizadas, audiodescrição de alta qualidade e tradução em Libras em tempo real. “Isso representa um avanço enorme para milhões de brasileiros com deficiência auditiva ou visual”, afirma.

Gerações diante da tela

O consumo de televisão reflete divisões geracionais. Pesquisas do DataSenado (2025) apontam que 65% dos brasileiros entre 50 e 70 anos assistem TV aberta diariamente como principal fonte de informação. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse índice cai para 28%, sendo os streamings e redes sociais os meios preferidos.

Foto: Freepik

A antropóloga Heloisa Buarque de Almeida, professora da USP, destaca que a televisão ainda exerce influência cultural. “Mesmo com queda entre jovens, programas de auditório, novelas e transmissões esportivas continuam a ser momentos de encontro coletivo, e isso é algo que nenhuma plataforma on demand conseguiu substituir”, analisa.

Desafios econômicos e regulatórios

Apesar do potencial, especialistas apontam obstáculos. A pesquisadora em políticas de comunicação Helena Martins, da Universidade Federal do Ceará (UFC), lembra que a transição tecnológica exige altos investimentos. “Nem todas as emissoras regionais têm condições financeiras de atualizar equipamentos em curto prazo. Isso pode gerar desigualdade de acesso entre capitais e cidades menores”, explica.

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estima que o processo completo de implementação leve até 15 anos, considerando adaptações de infraestrutura e troca de aparelhos receptores nos lares.

Outro ponto em debate é a regulação de conteúdo. O jurista Ronaldo Lemos, especialista em direito digital, alerta que o aumento da interatividade exigirá novas salvaguardas. “Se a TV passa a oferecer aplicativos e serviços digitais, surgem também questões de privacidade, coleta de dados e neutralidade. O Brasil precisará de uma legislação atualizada”, afirma.

A chegada da TV 3.0 não representa a substituição imediata da TV aberta, mas a abertura para um modelo híbrido que dialoga com o streaming e amplia serviços digitais. Para o pesquisador Marcos Napolitano, historiador da USP, o impacto será cultural. “Assim como a televisão moldou a memória coletiva no século 20, a TV 3.0 pode ser a plataforma que vai integrar tradição e inovação no século 21”, analisa.

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